O que me motivou a escrita deste texto, foi a participação como facilitadora do Curso avançado de Multiplicadores de Educação Midiática. Talvez seja até uma síntese de tudo o que é visto e refletido na riqueza dos materiais disponibilizados que me encantam a cada versão atualizada do Curso. Quanto mais estudo e trabalho com Educação Midiática, mais percebo que nosso desafio como educadores não é acompanhar a velocidade das tecnologias. Na verdade, acho isso ótimo, por que de certa forma, seria uma tarefa impossível! Uma nova plataforma aparece, outra desaparece, a IA ganha novos contornos, novas funcionalidades, surgem novas formas de produzir imagens, textos, vídeos e informações. Quando começamos a compreender uma ferramenta, provavelmente outra já está chegando. Por isso, entendo que a nossa tarefa como professor, seja outra que não ensinar nova ferramentas. Essas reflexões, juntamente com a experiência da sala de aula no dia a dia, me levaram a pensar que mais do que ampliar repertório ou conhecer novas estratégias, a questão é o que significa educar em um mundo no qual nossas relações com a informação são cada vez mais mediadas por plataformas, dados, algoritmos e inteligência artificial?
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| Imagem EDUCAMÍDIA |
A gente sabe que quando um estudante abre uma rede social, realiza uma busca, recebe uma recomendação, assiste a um vídeo ou conversa com uma IA, há uma série de decisões invisíveis acontecendo. Algoritmos selecionam, organizam, hierarquizam e personalizam aquilo que chega até ele. E esse é o nosso grande desafio como professor! Um deles, na verdade, por que temos muitos! A tecnologia, portanto, não é apenas uma ferramenta que acrescentamos à vida ou à escola. Ela modifica o próprio ambiente no qual aprendemos, nos relacionamos e construímos nossas percepções sobre o mundo. Talvez por isso seja mais do que necessário um esclarecimento importante: usar tecnologia não é, necessariamente, fazer Educação Midiática. Podemos sim, ensinar um estudante a criar uma apresentação, editar um vídeo ou utilizar uma IA. Tudo isso pode ser interessante pedagogicamente. Mas a educação midiática começa a ganhar outra dimensão quando acrescentamos perguntas. E perguntas demandam uma certa postura frente a tudo isso.
- Quem produziu esta mensagem?
- Com qual intenção?
- Por que estou vendo este conteúdo?
- Quem aparece e quem ficou de fora?
- Que emoções essa mensagem tenta provocar?
- Que interesses estão envolvidos?
- Como a própria plataforma interfere naquilo que vejo?
É uma mudança que parece sutil e pequena, mas essencialmente pedagógica: temos que sair do “como usar?” e irmos para o “por quê?”, “para quê?” e, principalmente, “e então?”.
É a velha e boa “pedagogia das perguntas”. Vale lembrar que essa expressão tira também o professor do lugar. Não cabe mais ao professor desempenhar o papel daquele que possui todas as respostas sobre um alguma tecnologia que muda diariamente. Mas podemos sim, ser um daqueles que ajudam nossos estudantes a formular perguntas melhores. Essa postura investigativa ganha ainda mais força quando a discussão entra na seara da integridade da informação.
Também acho que reduzimos Educação Midiática a reconhecer e identificar as "fake news"e isso, de certa forma, simplificou a conversa durante algum tempo colocando neste "saco" tudo junto! Hoje sabemos que o problema é muito mais complexo, já que existem conteúdos falsos, informações verdadeiras retiradas de contexto, erros compartilhados sem intenção de causar dano, enquadramentos, omissões, propaganda, interesses econômicos, vieses e diferentes estratégias de manipulação. Nesse cenário, dizer ao aluno “não acredite em tudo o que você vê na internet” já não resolve muita coisa, não é mesmo? Acho que para chegarmos a mudanças de posturas, precisamos ensinar procedimentos. E isso a Educação Midiática faz muito bem!
Pausar antes de compartilhar. Investigar quem está por trás de uma informação. Sair daquela página e procurar o que outras fontes dizem. Rastrear uma imagem ou afirmação até seu contexto original. Comparar versões. Procurar evidências. A leitura lateral e o protocolo P.I.E.R., por exemplo, concretizam essa postura investigativa em ações que podem ser incorporadas ao cotidiano escolar.
Mas há ainda mais uma camada. Não basta perguntar se uma informação é verdadeira, é importante perguntar também por que ela chegou até nós? E essa talvez seja uma das questões mais importantes da Educação Midiática atualmente.
Vivemos em uma economia da atenção, devido à necessidade das plataformas que exigem que permaneçamos nelas e, para isso, aprendem sobre nossos comportamentos, preferências e reações. Aos poucos, determinados conteúdos aparecem mais, outros desaparecem, algumas opiniões são reforçadas e podemos acabar enxergando uma pequena parcela do mundo como se fosse o mundo inteiro. Com a chegada da IA generativa, tudo isso se torna ainda mais complexo, por que agora não estamos apenas diante de conteúdos selecionados por algoritmos, estamos diante de conteúdos produzidos por sistemas algorítmicos.
Textos, imagens, vídeos e áudios sintéticos colocam em discussão autoria, credibilidade, direitos autorais, privacidade, vieses, representação, impactos ambientais e até aquilo que costumávamos considerar uma evidência visual.
E aqui eu tenho uma opinião que traz uma reflexão especialmente importante para a escola: não podemos responder a essa complexidade apenas proibindo. Formar para o uso crítico é muito mais eficaz pedagogicamente.
Isso significa ensinar nossos estudantes a compreender que uma IA não é mágica nem uma entidade que “sabe tudo”. Significa questionar seus resultados, confrontá-los com fontes, reconhecer vieses, perceber ausências, proteger dados pessoais, pensar sobre os impactos ambientais de seu uso e, principalmente, preservar a autoria e a voz humana. Precisamos de compromissos bastante concretos nesse sentido, incluindo a curadoria prévia de fontes antes do uso de chatbots, a atenção ao uso sem propósito da geração por IA e a busca deliberada por saberes e vozes de minorias nos dados de treinamento.
E isso nos puxa para outra reflexão fundamental sobre Educação Midiática que não significa apenas aprender a ler com pensamento crítico, mas também, aprender a criar, por que quando nossos estudantes passam de consumidores a produtores de mídia, eles começam a perceber que toda mensagem é construída. Escolher uma fotografia é tomar uma decisão, escolher uma palavra também, um enquadramento mostra algumas coisas e deixa outras de fora. Uma trilha sonora provoca emoções, um gráfico pode esclarecer um dado ou distorcê-lo. A escolha entre produzir um podcast, um vídeo, um infográfico ou uma história em quadrinhos interfere diretamente na maneira como aquela mensagem será recebida. Por isso, gosto particularmente de uma provocação contida no curso de Multiplicadores do Educamídia que aprendi com a minha querida amiga da qual sou fã Mariana Ochs: “pergunte à história como ela quer ser contada”.
Antes da ferramenta, vem a intenção: o que queremos comunicar? Para quem? Por quê? Que formato ajuda melhor a contar essa história?
Nesse sentido, rascunhar, pesquisar, selecionar fontes, construir uma narrativa, produzir, revisar e publicar são partes de uma mesma experiência de aprendizagem. E talvez seja justamente aqui que todas essas discussões encontrem a escola real.
Mas como colocar tudo isso no currículo? Uma resposta possível talvez seja aquela que diz que a Educação Midiática não precisa necessariamente ocupar uma nova disciplina ou disputar mais um espaço na grade. Ela pode funcionar como uma camada transversal sobre aquilo que já ensinamos.
- Podemos discutir credibilidade ao trabalhar pesquisa científica.
- Podemos analisar representação ao estudar imagens em Arte.
- Podemos investigar enquadramentos ao trabalhar História.
- Podemos discutir visualização e manipulação de dados em Matemática.
- Podemos analisar autoria, argumentação e produção de sentidos em Língua Portuguesa.
- Podemos discutir vieses, algoritmos e IA praticamente em todas as áreas.
A perspectiva deve ser integrar Educação Midiática ao planejamento cotidiano, identificando oportunidades para Ler, Escrever e Participar dentro dos conteúdos e experiências que já fazem parte do currículo da sua escola ou da sua unidade curricular ou ainda do conjunto de temas que você já trabalha corriqueiramente.
E aqui chego, então, a mais uma vez a importância do papel do professor que deve ser aquele que não tem as respostas prontas, mas que aprendeu a enxergar perguntas onde antes enxergava apenas ferramentas. Alguém que olha para sua escola, sua turma, sua comunidade ou seu território e percebe questões que merecem ser investigadas. E isso não precisa ser difícil! Pode ser algo que você tem observado diariamente, como a maneira como os estudantes pesquisam com IA, a circulação de desinformação entre as famílias, os estereótipos presentes nas imagens geradas por algoritmos, o cyberbullying, a invisibilidade de determinadas vozes, o excesso de telas, a privacidade dos dados, o discurso de ódio presente nas redes ou a dificuldade de reconhecer uma fonte confiável. Nessas questões corriqueiras que temos contato diariamente, que um projeto pode nascer, de uma questão real que queremos compreender ou transformar.
E para tanto, antes de perguntar “o que vou fazer?”, talvez valha perguntar:
O que, no meu contexto, está me incomodando, despertando minha curiosidade ou pedindo uma intervenção?
Depois disso vêm as outras decisões: com quem trabalhar, quais conceitos mobilizar, que experiência propor, que mídia produzir, como promover protagonismo, que evidências registrar e como avaliar aquilo que aconteceu. Um projeto bacana de Educação Midiática ultrapassa a aplicação de uma atividade isolada. O professor projeta, aplica, reflete sobre a própria prática, compartilha o que aprendeu, apoia seus pares e cria condições para que aquela experiência possa alcançar outras pessoas e outros contextos. Será um multiplicador????
É certo que não conseguiremos preparar nossos estudantes para todas as tecnologias que ainda virão, mas podemos ajudá-los a desenvolver algo muito mais duradouro: curiosidade, repertório, autoria, capacidade investigativa, discernimento e autonomia. E isso, repito, é postura, algo que Perrenoud chama de "conteúdo procedimental".
O professor pode (e deve) ensinar os seus estudantes a pausar antes de compartilhar, a desconfiar daquela informação, a procurar evidências, a identificar interesses, a reconhecer ausências, a criar com responsabilidade, a utilizar a IA sem terceirizar para ela o seu próprio pensamento. E isso pode ocorrer não apenas com os estudantes, mas também com os colegas, com a escola e comunidade.
Talvez seja esse, afinal, o nosso principal objetivo com a Educação Midiática: não ensinar as pessoas o que pensar diante das mídias, mas criar condições para que elas aprendam a perguntar, investigar, criar e participar com autonomia, porque, como falamos aqui, as ferramentas certamente continuarão mudando, mas a capacidade de fazer boas perguntas precisa permanecer!
Vale a pena conhecer o material do EDUCAMÍDIA! Lá você vai encontrar Recursos e Materiais para a prática docente de forma a aprimorar seu papel como um verdadeiro educador midiático!
EducaMídia é o programa de educação midiática criado pelo Instituto Palavra Aberta, com o apoio do Google.org.
Texto foi revisado e corrigido gramaticalmente pelo GEMINI.
Vale a pena conhecer o material do EDUCAMÍDIA! Lá você vai encontrar Recursos e Materiais para a prática docente de forma a aprimorar seu papel como um verdadeiro educador midiático!
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