Em um artigo publicado no jornal Valor, no dia 03/06/2026, a pesquisadora e professora da PUC-SP, Dora Kaufman, propõe uma distinção importante para compreender os desafios da Inteligência Artificial nas organizações: a diferença entre letramento e evangelização.
Inspirada pelo texto da professora, que aborda essencialmente o universo corporativo, fiz o exercício de uma transposição didática para as instituições de ensino e o universo escolar, no qual estou profundamente inserida.
No seu texto, ela menciona o termo "estreitamento cognitivo", da psicóloga Susan David, da Harvard Medical School, citado em um artigo publicado também no Valor em 21 de Maio de 2026, definido como a tendência humana de simplificar cenários complexos e ambíguos em busca de respostas rápidas e certezas confortáveis. A partir desse ponto, o alerta vermelho já se acendeu para mim, pois, em um momento em que a IA ocupa cada vez mais espaço nos debates educacionais, esse é um desafio importante e que merece atenção.
Como tenho comentado aqui (aliás, desde os primórdios deste blog e de todas as "novas tecnologias" surgidas nesse período), quando ocorre a chegada de tecnologias emergentes às escolas, há sempre um frisson geral: reações, emoções e até uma certa comoção que oscila entre o entusiasmo exagerado e a rejeição imediata. Infelizmente, nas duas situações, perdemos a oportunidade de discutir um tema de fundamental importância na atualidade e que já tem trazido impactos significativos ao cotidiano de estudantes e professores.
A decisão de permitir ou não o uso da IA dentro da escola já ficou para trás! Tanto nas escolas públicas quanto nas privadas, os alunos já fazem uso da IA em suas próprias redes, pelo celular, o que se torna difícil de monitorar. Portanto, ainda que haja resistência por parte de professores, coordenadores e diretores, ela já faz parte da vida dos estudantes. Penso que agora o momento é de refletir sobre COMO incorporá-la de maneira ética, crítica e pedagogicamente significativa. E não podemos demorar muito não!
Outro dado destacado pela professora Dora Kaufman diz respeito à pesquisa da Prosci: 63% dos desafios relacionados à implementação da Inteligência Artificial têm origem em fatores humanos, e não em limitações tecnológicas. Em outro estudo realizado pelo Google Cloud, também apontado por ela, mostra-se que 64% dos executivos reconhecem a urgência de adotar ferramentas de IA generativa, mas mais da metade admite que suas organizações não possuem as competências necessárias para fazê-lo adequadamente. Aqui, ressalto: qualquer semelhança com o universo escolar não é mera coincidência, pois o cenário é praticamente o mesmo (o link das pesquisas encontra-se no artigo original).
Muitas instituições já disponibilizam ferramentas baseadas em IA para seus profissionais e estudantes, o que não garante absolutamente nada. Aliás, penso que isso pode até piorar a adoção adequada da IA. Ferramentas, plataformas e aplicativos não faltam em várias escolas. O que faz falta, de verdade, é dar condições para que os atores pedagógicos compreendam o fenômeno em profundidade e desenvolvam segurança para atuar nesse novo contexto.
E é aí que a professora Dora entra com os termos: letramento e evangelização.
O letramento em IA diz respeito à formação de toda a comunidade escolar. Envolve compreender o funcionamento básico dessa tecnologia, reconhecer seus limites, identificar vieses, analisar impactos éticos e aprender a utilizá-la de forma responsável. Algo como desenvolver repertório crítico.
E aqui faço um parêntese por minha conta sobre a diferença entre alfabetização e letramento. Um exemplo didático que gosto de mencionar para diferenciar os dois termos é baseado na escrita (perdoem-me se houver algum equívoco; aceito sugestões e comentários de quem é da área): alfabetização é aprender a ler e escrever. O foco está na compreensão da combinação e composição entre sílabas e letras. Já o letramento é o uso que se faz da leitura e da escrita, estando mais relacionado à sua função social.
Para os professores, isso significa ir além do uso instrumental e técnico das ferramentas. Significa compreender quando a IA pode apoiar processos de aprendizagem, quando pode comprometer o desenvolvimento de determinadas habilidades e quais competências humanas precisam ser fortalecidas justamente porque as máquinas passaram a executar determinadas tarefas com eficiência. E eu vejo que ainda estamos bem longe de um cenário em que haja essa compreensão geral por parte dos docentes.
Para os estudantes, o letramento é muito mais saber perguntar do que obter respostas. Envolve questionar respostas prontas, verificar informações, identificar vieses e alucinações, reconhecer manipulações e compreender que nem toda resposta produzida por uma IA é necessariamente correta ou adequada.
Mas Dora Kaufman chama a atenção para uma segunda camada igualmente importante: a evangelização das lideranças. Ao ler o texto, estranhei o termo. Fiquei em dúvida sobre seu significado, mas entendi quando ela esclareceu:
O termo 'evangelização' deriva do grego euangelon ('boas novas') e euangelizomai ('eu trago uma mensagem'), significando originalmente uma recompensa por trazer boas novas. No universo cristão, representa a defesa de uma causa com o objetivo de converter pessoas; e, em um sentido mais amplo, é o compartilhamento intencional e persuasivo de uma causa ou crença com o objetivo de apresentar um novo método de vida à luz de uma nova tecnologia, com a convicção de seus benefícios. Organizações usam o termo para descrever a comunicação de uma mensagem transformadora, e a indústria de tecnologia considera 'evangelista' alguém que defende algo apaixonadamente, incentivando outros a adotarem a mesma perspectiva.
No contexto escolar, essa evangelização não deve ser entendida como convencimento ou adesão incondicional à tecnologia. Entendo que, aqui, a ideia passa pela compreensão estratégica por parte das equipes gestoras. Diretores, coordenadores e mantenedores precisam entender que a IA não é apenas uma nova ferramenta tecnológica, mas que ela traz mudanças nas formas de ensinar, aprender, avaliar, produzir conhecimento e organizar o trabalho pedagógico.
Quando os gestores compreendem esse impacto, as decisões deixam de ser pautadas apenas pela aquisição de tecnologias e passam a considerar aspectos como formação continuada, governança, ética, privacidade de dados, cultura institucional e desenvolvimento humano. E aqui me permito fazer outro parêntese: nós já passamos por isso anteriormente, não é mesmo? Quem lembra?
Essa reflexão é particularmente importante porque a escola possui uma responsabilidade que vai além da aquisição de competência operacional. Enquanto empresas buscam resultados de negócio, instituições educacionais formam pessoas. Por isso, qualquer debate sobre IA na educação precisa preservar uma pergunta fundamental: quais capacidades humanas queremos desenvolver em nossos estudantes?
Curiosamente, a própria expansão da IA reforça a importância de competências tradicionalmente associadas ao trabalho educativo. Empatia, criatividade, pensamento crítico, argumentação, colaboração, discernimento ético e capacidade de lidar com a incerteza tornam-se ainda mais valiosas em um cenário no qual as máquinas conseguem produzir textos, imagens, códigos e análises em poucos segundos.
A leitura do artigo de Dora Kaufman nos convida, portanto, a deslocar o foco da tecnologia para as pessoas. Antes de discutir plataformas, licenças ou ferramentas, talvez seja necessário perguntar: nossa comunidade escolar está preparada para compreender criticamente essa transformação? Nossas lideranças conseguem enxergar seus impactos para além do curto prazo? Estamos formando usuários de IA ou cidadãos capazes de conviver de forma consciente com ela?
A resposta a essas questões provavelmente definirá não apenas a qualidade da adoção tecnológica nas escolas, mas também a capacidade da educação de cumprir sua missão em uma sociedade cada vez mais atravessada pela IA. Lideranças devem ser evangelizadas, professores e estudantes, adquirir letramento! É isso?
Nesse sentido, o maior desafio não é tecnológico. Como afirma Dora Kaufman, trata-se de um desafio essencialmente humano. E é justamente por isso que a educação tem um papel tão estratégico neste momento histórico.
Obrigada, professora Dora Kaufman! Seu artigo gerou boas reflexões por aqui!
Clique aqui para acessar o LinkedIn da professora e a postagem do artigo na íntegra!
Esse texto foi revisado e corrigido gramaticalmente pelo GEMINI.















.heic)


