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| Centro de Juventude - Comunidade Jardim Iporanga - SP - 1985 |
É uma loucura, mas quando olho para trás, penso que já vi chegar o computador, a internet, os ambientes virtuais de aprendizagem, os dispositivos móveis e tantas outras tecnologias que, em diferentes momentos, foram anunciadas como grandes revoluções para a educação. Algumas realmente transformaram nossas práticas, outras passaram quase despercebidas e muitas continuam por aí, reinventadas. E agora estamos diante da IA Generativa, que parece colocar tudo isso em outra dimensão. Será?
Mas, depois de tantos anos na escola, a pergunta que considero realmente importante, mais do que descobrir qual será a próxima tecnologia é: que educação queremos construir e quem estará disposto a assumir essa tarefa? Essa reflexão me acompanha há algum tempo, especialmente quando observo o cenário da formação de professores no Brasil e a chegada da IA na vida dos estudantes.
Um levantamento do Instituto Semesp aponta que, entre 2015 e 2024, tivemos uma redução de 13,5% no número de estudantes que concluíram os cursos de licenciatura. Outra projeção, também divulgada pelo instituto, alerta para a possibilidade de um déficit de até 235 mil professores na Educação Básica até 2040, caso determinadas tendências se mantenham. E isso é sim, muito preocupante, não é mesmo? Enquanto falamos tanto sobre a escola do futuro, sobre as competências do século XXI, sobre IA e novas formas de aprender, estamos deixando de olhar para uma questão bastante concreta: quem vai querer ser professor nesse futuro que estamos desenhando? E aqui, não estou falando apenas da falta de profissionais, mas me refiro ao próprio sentido de ser professor hoje.
Ao longo desses anos, acompanhei mudanças importantes na maneira como a sociedade enxerga a escola e seus educadores. A profissão, que já foi associada a um lugar de reconhecimento social, convive hoje com salários pouco atrativos, jornadas exaustivas, burocracias intermináveis, pressões por resultados, plataformização por meio de apps, condições de trabalho nem sempre adequadas e, em muitos contextos, com a desconfiança em relação ao próprio trabalho docente.
Sem falar no momento político que vivemos!
A educação sempre foi um espaço de disputas, e isso não é novidade. Disputamos concepções de ensino, políticas públicas, investimentos, currículos e projetos de sociedade. Mas me preocupa perceber como, em determinados momentos, o debate educacional se transforma em um campo de polarizações no qual o professor, que deveria ser ouvido como alguém que conhece profundamente o cotidiano escolar, acaba sendo tratado como parte do problema. Curioso isso, porque, ao mesmo tempo que se espera que a escola resolva questões sociais cada vez mais complexas, nem sempre são oferecidas as condições necessárias para que ela cumpra seu papel.
E então chega a IA! De repente, temos sistemas capazes de produzir planos de aula, atividades, avaliações, apresentações, vídeos, imagens, roteiros de estudo e tantas outras coisas. Algumas ferramentas conseguem acompanhar percursos individuais de aprendizagem, oferecer explicações personalizadas e apoiar o trabalho do professor de maneiras que, há poucos anos, pareciam fpouco improváveis.
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| Mesa de Paulo Freire no Instituto Paulo Freire - SP - 2010 |
Penso nas minhas turmas, nas conversas que surgiram sem qualquer previsão no planejamento, nas atividades que precisei modificar porque os estudantes encontraram outros caminhos, nas dificuldades que só percebi porque conhecia aquele aluno, nas experiências coletivas que produziram aprendizagens muito maiores do que aquelas previstas inicialmente. Penso também nas experiências corporais, nas criações coletivas, nos projetos em que os estudantes precisam negociar ideias, lidar com frustrações, escutar os colegas, rever decisões e construir algo juntos. Tudo isso é aprendizagem!
E vejam bem, não se trata de negar as possibilidades da tecnologia ou da IA, muito pelo contrário! Aqui é preciso compreender que a educação envolve dimensões que não podem ser reduzidas à produção de respostas, por mais corretas e bem elaboradas que sejam.
Uma IA pode escrever um texto maravilhoso sobre empatia, mas isso não significa que tenha vivido uma experiência de empatia. Pode explicar o que é colaboração, mas não substitui as relações humanas que fazem a colaboração acontecer. Pode produzir uma excelente proposta pedagógica, mas não conhece, por si só, os olhares, as histórias, os conflitos e as particularidades daquela turma.
É por isso que continuo acreditando tanto na intencionalidade pedagógica do professor. E, nesse ponto, não consigo deixar de pensar em Paulo Freire. (E aqui cabe um parêntesis: sabiam que eu trabalhei na PMSP, antiga Secretaria da Família e Bem-Estar Social, na gestão de Luiza Erundina que contou com Paulo Freire como Secretário Municipal de Educação e a participação de Mário Sérgio Cortella?)
Volto ao nosso querido mestre Paulo Freire com frequência, especialmente quando percebo que algumas discussões educacionais parecem excessivamente preocupadas com os meios e pouco atentas aos fins, por que afinal, para que educamos?
Freire nos ensinou que a educação é uma prática profundamente humana, construída no diálogo, na leitura crítica do mundo e na relação entre sujeitos que ensinam e aprendem. E nos lembrou que educar é também um ato político, porque nossas escolhas pedagógicas expressam concepções de sociedade, de conhecimento e de ser humano. Isso não significa transformar a sala de aula como em um espaço de doutrinação, como se tem falado muito por aí, mas significa reconhecer que nenhuma escolha educacional é completamente neutra. Quando decidimos quais conhecimentos merecem espaço no currículo, quais histórias queremos contar, quais vozes serão ouvidas e como os estudantes poderão participar da construção do conhecimento, estamos fazendo escolhas. E quando incorporamos a IA à escola, também estamos fazendo escolhas, por que podemos utilizá-la para reproduzir práticas antigas com uma aparência mais moderna, podemos automatizar tarefas, acelerar processos e continuar valorizando apenas respostas prontas. Ou podemos aproveitar essas tecnologias para criar outras possibilidades de aprendizagem, estimular a investigação, ampliar repertórios, favorecer a autoria, promover a colaboração e desenvolver o pensamento crítico.
Mas, para isso, precisamos de professores preparados, valorizados e com autonomia para decidir.
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| Formação de Professores - SP - 2023 |
Depois de mais de quatro décadas como professora, poderia dizer que já vi de tudo, mas não é verdade... por que a educação continua me surpreendendo, provocando novas perguntas e me fazendo rever certezas. Talvez seja justamente isso que ainda me mantenha tão envolvida com a profissão: a possibilidade permanente de aprender. E é aqui que encontro novamente Paulo Freire, especialmente na ideia de esperançar. Gosto muito dessa palavra apesar de ser muito utilizada indevidamente, porque ela nos tira da posição confortável de quem apenas espera que as coisas melhorem. Esperançar exige movimento.
Não é ignorar os problemas, fingir que está tudo bem ou romantizar uma profissão que enfrenta tantas dificuldades. Também não é acreditar ingenuamente que uma nova tecnologia, uma reforma curricular ou uma política educacional resolverá, isoladamente, questões que são históricas e estruturais.
Esperançar é reconhecer os problemas e agir sobre eles. É defender uma formação inicial consistente e oportunidades reais de formação continuada. É lutar por condições dignas de trabalho, por políticas públicas que valorizem a docência e por escolas nas quais professores e estudantes tenham espaço para criar, investigar, questionar e participar. É também continuar experimentando novas possibilidades, sem perder de vista aquilo que dá sentido ao nosso trabalho.
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| Formação de Professores - IA - PMSP - 2025 |
Comecei mi9nha carreira docente em 1985, quando boa parte das tecnologias que hoje fazem parte da nossa rotina nem sequer existia. De lá para cá, muita coisa mudou. Eu também mudei, aprendi, desaprendi, experimentei, errei e recomecei inúmeras vezes. Mas há algo que continua fazendo sentido para mim: educar é acreditar na possibilidade de transformação das pessoas e do mundo, mesmo quando a realidade insiste em nos mostrar o contrário.
E isso não é pouco. Talvez o grande desafio que temos pela frente não seja descobrir até onde a IA conseguirá chegar, mas decidir até onde estamos dispostos a ir para garantir que a educação continue sendo um espaço de encontro, de criação, de pensamento e de transformação e, principalmente, que ainda existam pessoas desejando fazer parte dessa história como professores.
Porque esperançar, como nos ensinou Paulo Freire, não é simplesmente esperar por um futuro melhor. É trabalhar para construí-lo. E, depois de mais de 40 anos de sala de aula, continuo por aqui, aprendendo, questionando e esperançando!





3 comentários:
Muito bom ler o seu texto. Eu estava querendo mesmo uma mensagem de esperança e coragem. Parabéns pelo seu trabalho, Beth.
lindeza! obrigada pelo comentário!
Excelente reflexão!
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