A avaliação e a disposição de acolher do avaliador

Ao analisar o conteúdo de um trabalho que venho desenvolvendo e vislumbrar algumas atividades de aprendizagem para este material, surgiram muitas questões que me causaram certo desconforto, mas que me obrigaram a refletir de forma muito interessante, relembrando conceitos já estudados e esquecidos nos livros de faculdade de Pedagogia, lá no fundo da gaveta.... Fiquei me perguntando: Como preparar um sujeito, que não tem opção de escolha em obter a certificação exigida e irá enfrentar uma prova classificatória que será seu passaporte para uma qualificação profissional? Que referências ele tem de avaliação? Essa é a melhor forma de avaliar? Concursos, vestibular, ENEM.....E por aí vai...

Discutir avaliação é sempre um assunto polêmico, mas importante. Isso porque ela está presente em todos os momentos de nossas vidas. A todo instante somos obrigados a tomar decisões que nos remetem às nossas opiniões assumidas como corretas ou não (de acordo com nossos valores e juízos pessoais) e que nos ajudam nas escolhas. Ela faz parte de nosso cotidiano e, ao avaliarmos algo, mobilizamos nossos sentidos, capacidade intelectual, habilidades, sentimentos e paixões, idéias e ideologias. Assim, “nessas relações estão implícitos não só os aspectos pessoais dos indivíduos, mas também aqueles adquiridos em suas relações sociais.” (Kenski, 1999). [1]

Se o ato de avaliar está presente em nosso cotidiano, não podemos excluí-lo das situações de aprendizagem, já que aprendemos o tempo todo! Mas a avaliação, dentro de uma organização, escolar ou empresa, passa por valores e juízos de quem avalia, seja o professor/gerente ou quem estiver no lugar dele. Muitas das dificuldades presentes no sistema educacional, não se devem tanto às questões reais, mas sim “aos hábitos e costumes acumulados de uma tradição escolar, cuja função básica foi seletiva e propedêutica.” (Zabala, 1998) [2] .

O sistema organizacional - novamente lembrando se é escola ou empresa - não avalia a aprendizagem do sujeito, mas sim o examina. Ao examiná-lo, opera-se com o desempenho final (resultado), situações pontuais, classificação, seleção e exclusão. A avaliação deve privilegiar exatamente o contrário: não ser pontual, ser diagnóstica e inclusiva. Eis aí, uma diferença fundamental.

“O ato de avaliar, devido a estar a serviço da obtenção do melhor resultado possível, antes de mais nada, implica a disposição de acolher.(...) A disposição de acolher está no sujeito do avaliador e não no objeto da avaliação.(...) Ele é o detentor dessa disposição. E sem ela, não há avaliação.” (Luckesi, 2000) [3]

Esse acolhimento só ocorre se a relação entre as partes (aluno/professor, gerente/funcionário, aprendiz/tutor, orientando/orientador etc.) for de confiança. E essa confiança só se dá quando existem objetivos compartilhados entre eles. Essa confiança deve estar pautada no “conhecer para ajudar”. (Zabala, 1998) [4]

Estabelecer um clima de respeito e confiança mútua, cooperação e cumplicidade, contribui para a construção do conhecimento e constitui-se em um incentivo para o sujeito/aluno aprender - construir o próprio saber. Neste contexto a avaliação passa a ter um sentido mais amplo – orientador e cooperativo.

A avaliação ajuda o sujeito a avançar em seu processo de aprendizagem e o professor a melhorar sua prática pedagógica. É uma via de mão dupla: avaliação do aprendizado = avaliação do ensino , tanto em situações de aprendizagem presenciais, quanto naquelas mediadas pela Internet. Para isso, os procedimentos de avaliação devem contemplar as ações que serão realizadas entre professores e alunos, com o objetivo de diagnosticar e acompanhá-los na efetivação do processo de ensino-aprendizagem. Sendo assim, avaliar a aprendizagem, compreendida aqui como rendimento do aluno, corresponde à avaliação do ensino e, portanto, o trabalho do professor.

Historicamente o termo avaliar foi visto como medir e testar e a aprendizagem como uma transmissão e acumulação de conhecimentos prontos. Por isso, os alunos (e também alguns professores) demonstram resistência a qualquer tipo de procedimento avaliativo, o que pode ser explicado pelo uso autoritário de procedimentos de avaliação de aprendizagem com que vivenciaram ao longo de sua vida escolar. Nessa abordagem em que educar se confunde com informar, a avaliação assume um caráter seletivo e competitivo, pois visa o resultado final. Avaliar implica em medir – informações memorizadas e retidas. E é aí que entra a avaliação por certificação, vestibular, concursos, etc.

A avaliação da aprendizagem, quanto ao procedimento escolhido, pode ser: diagnóstica (identificar facilidades/dificuldades atuais ou anteriores ao momento), formativa (acompanhar o processo de construção do conhecimento do aluno e auxilia o professor a verificar se os objetivos de ensino estão sendo atingidos) e somativa (fornecer dados para tomada de decisões em relação à promoção ou retenção dos alunos, podendo ser classificatória).

Não...não é fácil. Mas cabe a nós, educadores, mudar. E mudar implica em movimentar-se.

Então...você vai ficar aí?


imagem: http://www.esutes.com.br/sistema_avaliacao.html

[1] Kenski,Vani Moreira. Avaliação da aprendizagem. Em: Ilma Passos AlencastroVeiga, Repensando a didática, p.131-43.

[2] Zabala,Antoni. A prática Educativa: como ensinar. Ed. Artmed, São Paulo, SP,1998.

[3] Luckesi,Cipriano. O que é mesmo o ato de avaliar a aprendizagem? Revista Pátio,ano 3, nº 12, Fev/Abr-2000. Ed. Artmed.

[4] Zabala,Antoni, idem.

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